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O diário de Capitu - e um olhar de areia movediça sobre o concreto oculto
(...) Á queima-roupa entregou-me um dossiê tentando provar que a vida tanto pode ser maravilhosa, quanto curta. Riu ao ver meu coração se danar e me chamou para ir embora daqui, levando na mochila as magias das incertezas. Ele me chama de bela e me morde a boca quando me beija. Tem noites que ele se esconde entre os meus cabelos e diz que gosta do meu cheiro. Eu não gosto do seu jeito extravagante de me confundir, mas gosto quando ele me deixa nua, sem disfarces, e se confunde. Nunca me prometeu os anéis de Saturno, mas por mim derrama suas conspirações de universo, sabe? Depois me olhou com olhos cítricos e disse que por mim não chora e que o amor é quase uma heresia. Me escreveu a mesmíssima poesia pela milésima vez e eu, tola, por um excesso de lirismo, e heresia, deixei esse cisco no olhar escorrendo pelas paredes coronárias cheias de vãos. Encarnei um olhar de Capitu em dia de claustro e dor, revelando minhas ultimas gotas que se evaporam, mas eu sei, com quase certeza, que todos nós acabaremos mortos mais dia menos dia. Me contaram que a gente morre e morre e morre e nasce pra morrer de novo. Talvez seja por isso que sou abismada com tanta vida desperdiçada ao redor, com tanta vida definhando abismo abaixo. Eu sou um abismo. Eu não tive tempo de contar para ele que há em cada vão coronário uma saudade, um suspiro, e em cada suspiro o surrealismo de achar que a vida poderia ser maravilhosa. E é.
*Escutando Loreena Mckennitt
A eternidade é o estado das coisas neste momento. (A hora da estrela)
Escrito por Geórgia às 18h50
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