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No Fundo Só Existe Cova Rasa
Descobri no bolso do paletó aquele ultimo bilhete que não mandei. Foi escrito com o esmero de muitas lágrimas engolidas. Quando o assinei, estava com a missão cumprida e uma expressão de página virada. Não. Expressão de livro guardado na ultima prateleira da estante. Não importa, uma expressão é uma impressão. Desde aquela noite nunca mais pensei em ti e transformei qualquer lembrança em mal elaboradas caricaturas, mas confesso que ainda não perdi o hábito de me servir duas taças de vinho quando a noite chega. As vezes me pego declamando poemas debaixo do chuveiro de uma forma tão audível quanto a distância que nos une. Você ri? Prefiro declamar poemas do que te cantar, fico mais afinada. Outro dia acendi velas ao redor da hidromassagem e deixei que ficassem queimando até o dia amanhecer. Foi meu plano diabólico para exorcizar o fantasma que me come, me talha e me deixa com água na boca. Do ponto de vista estético foi uma noite bonita, repleta de mistérios nas sombras que se formavam nas paredes, tão cheias de espaços para as safadezas nossas. Fiquei ali por horas brincando com as imagens que se formavam, destruindo uma a uma, sem dó, e pouca piedade. Cometi atrocidades, abusei de formas inusitadas para lhe deixar exaurido, até chegar o momento supremo de lhe matar. Como derradeiro adeus cobri seu corpo com pétalas, vermelhas, para dar mais teatralidade ao rito, mas não sei porque você resolveu no ultimo instante me olhar daquela forma que te adia. - ‘Seriam os deuses, criaturas imortais?'
(Ao som de Zélia Duncan cantando Leminski )
um homem com uma dor é muito mais elegante caminha assim de lado como se chegando atrasado andasse mais adiante
Escrito por Geórgia às 21h36
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